Exposição Carlos Gomes

e o Theatro Municipal
do Rio de Janeiro

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Carlos Gomes entre dois continentes

Antônio Carlos Gomes (1836-1896) é o maior compositor brasileiro do século XIX. Iniciou seus estudos de música com o pai, Manoel José Gomes, regente da Banda Sinfônica de Campinas. Começou a compor influenciado pelas partituras de ópera italianas, particularmente por Il Trovatore (1853), de Giuseppe Verdi.

Ao chegar ao Rio de Janeiro em 1859, passou a frequentar as aulas do compositor italiano Gioachini Gianini. Pouco tempo depois, compôs duas óperas – A noite do Castelo, em 1861, e Joana de Flandres, em 1863 -, muito bem recebidas pelo público da corte.

Com a repercussão positiva de seu trabalho, em 1863 recebeu apoio do Imperador Dom Pedro II para aprimorar os estudos na Europa. Antes de chegar a Itália, passou por Portugal e França. Em fevereiro de 1864 estudou com o compositor Lauro Rossi, diretor do Conservatório de Milão, onde obteve o título de Maestro Compositor em 1866. Na Itália compôs suas principais obras musicais. A ópera Il Guarany (baseada no livro de José de Alencar, publicado em 1857) foi criada em 1869/1870 e estreou no Teatro Alla Scalla em 19 de março de 1870.

O enredo hedonista de O Guarany apresenta uma alegoria das origens do Brasil, onde o elemento indígena, como representante nativo, revela seu espírito dócil e colaborativo com o colonizador branco. O amor puro do índio Peri pela branca Ceci representa a formação da identidade étnica brasileira, origem da mestiçagem e se coaduna com o Romantismo, estilo que caracteriza o século XIX.

O sucesso da ópera foi imediato, consagrando o Carlos Gomes em toda Europa. Em 2 de dezembro de 1870, aniversário do Imperador, O Guarany estreou no Brasil, no Teatro Lírico.

A década de 1870 foi a de maior produção operística de Carlos Gomes: Fosca, que estreou no Alla Scalla em fevereiro de 1873; Salvador Rosa, no Teatro Felice, Gênova, em março de 1874; Maria Tudor, no Alla Scalla, em março de 1879.

Ao referir-se à produção dessa década, Carlos Gomes declarou: “Fiz o Guarany para os brasileiros; o Salvador Rosa para os italianos e Fosca para os entendidos.”

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LO SCHIAVO

Carlos Gomes compôs Lo Schiavo em 1889, ano seguinte ao da Abolição da Escravatura no Brasil, a partir de cenário imaginado pelo Visconde de Taunay, seu amigo. A ópera, em quatro atos, com libreto de Rodolfo Paravicini, estreou no Brasil no Teatro Imperial Dom Pedro II, em 27 de setembro de 1889, sob regência do compositor. Naquela noite, Carlos Gomes recebeu das mãos do Imperador a medalha da Ordem da Rosa, maior condecoração oferecida pelo Império.

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O espetáculo de estreia contou com um elenco de italianos, como o barítono Innocente de Anna como o protagonista Iberê, Maria Peri como Ilara e o tenor Franco Cardinalli como Américo.

A montagem de Lo Schiavo foi precedida de vários percalços. Uma desavença com o libretista Rodolfo Paravicini tomou proporções jurídicas em 1888 e impediu que a ópera fosse apresentada na Itália. A celeuma foi causada por uma alteração que Carlos Gomes fez no 2º ato, quando, para o Hino à Liberdade, valeu-se de um poema de Francesco Giganti, um amigo seu. Paravicini não aceitou a inclusão: entrou na justiça e ganhou a causa.

Ao saber que Carlos Gomes enfrentava problemas financeiros e legais para estrear na Itália, a Princesa Isabel abriu uma subscrição para arrecadar fundos para a montagem da ópera no Brasil. A grande generosidade da Princesa foi reconhecida por Carlos Gomes, que dedicou-lhe a  obra.

Innocente de Anna
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Ao se referir a Lo Schiavo, Carlos Gomes a definia como “novo Guarani com enredo melhorado”. Para os críticos, a ópera passou a ser reconhecida por ser uma das primeiras a abordar o tema escravidão e suas mazelas e a reverenciar a liberdade como marca de novos tempos para o Brasil.

Menos de dois anos depois de estrear Lo Schiavo, Carlos Gomes compôs Condor, com libreto de Mário Canti, que estreou no Teatro Alla Scalla em fevereiro de 1891. No ano seguinte, a fim de homenagear os quatrocentos anos da descoberta da América, Gomes compôs Colombo, oratório que estreou no Teatro Lírico do Rio de Janeiro em 12 de outubro.

O maestro e compositor Carlos Gomes faleceu em Belém, em 16 de setembro de 1896, onde dirigia o Conservatório do Pará.

Em cena, a ópera desenrolou uma história
passada no Brasil, nos arredores
do Rio de Janeiro, no ano de 1567,
onde Ilara e Iberê, pertencentes à tribo dos
tamoios, eram escravos de um senhor
de terras. Como prisioneira do Conde
Rodrigo, Ilara se apaixona por Américo,
filho do Conde.
Quem recebe Américo na corte é a Condessa de Boissy
que, como abolicionista convicta, resolve libertar seus
escravos índios entre os quais estão Iberê e Ilara. Livre, o
casal passa a viver numa tribo mais distante. Iberê tenta
conquistar o amor da mulher, mas ela lhe conta que havia
feito um voto de fidelidade a Américo. Com raiva, Iberê se
junta à tribo em revolta aos portugueses. Nesse episódio,
Américo é capturado e levado até Iberê, mas as coisas se
esclarecem e Iberê, fiel ao seu benfeitor, liberta-o.

Resumo da ópera


tracejado
Um dia Américo liberta Iberê do tronco e,
por gratidão, o índio jura fidelidade eterna ao
jovem. Sabendo do amor de Américo e Ilara,
Rodrigo manda o filho para o Rio de Janeiro,
para fazer parte das forças armadas e lutar
contra a rebelião dos índios. Nesse meio
tempo, ele trata de casar Iberê e Ilara.
A fuga de Ilara e Américo é percebida pelos
tamoios, que querem vingança. Iberê se
mata, oferecendo sua vida em troca da dos
amantes, que conseguem escapar.
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Armando Borgioli
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Aureliano Marcato
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Santiago Guerra
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Denis Gray
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Claudia Antea
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Carlos Gomes e Lo Schiavo no Municipal

Embora Carlos Gomes tenha falecido muito antes do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ser construído, suas composições fazem parte de inúmeras temporadas da instituição. No espetáculo de inauguração, em 14 de julho de 1909, "Noturno", da ópera Condor, foi apresentada ao público no 2º ato.

Ao longo de sua existência o Municipal apresentou as principais óperas compostas por Carlos Gomes.

A primeira apresentação de Lo Schiavo no Municipal foi em 21 de setembro de 1917, com a Empresa La Teatral de W. Mocchi.

Em 3 de setembro de 1936, Lo Schiavo foi apresentada como parte das comemorações do centenário de Carlos Gomes.

O espetáculo reuniu um elenco magistral, composto por Armando Borgioli como Iberê, Gina Cigna como Ilara, Maria de Sá Earp como a Condessa Boissy e Aurélio Marcato como Américo.

A coreografia foi de Maria Olenewa e a regência de Angelo Questa. Em 1959, durante as comemorações do cinquentenário do Theatro Municipal, Lo Schiavo voltou à programação sob a regência de Santiago Guerra e coreografia de Dennis Gray.

O elenco, composto pelo barítono Lourival Braga como Iberê, Ida Miccolis com Ilara, Alfredo Colósimo como Américo e Antea Claudia como a Condessa Boissy, garantiu o sucesso da temporada junto ao público.

Maria Sá Earp
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Lourival Braga
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Da primeira apresentação, em 1917, até a penúltima, em 1999, Lo Schiavo subiu ao palco do Theatro Municipal vinte e quatro vezes.

A montagem de 2016 - com direção cênica de Pier Francesco Maestrini e direção musical e regência de Roberto Duarte - em comemoração aos 180 anos de Carlos Gomes e aos 127 da estreia da ópera no Brasil, emocionou o público.  Nos papéis principais, Rodolfo Giugliani como Iberê, Adriane Queiroz como Ilara, Claudia Azevedo como a Condessa de Boissy e Fernando Portari como o apaixonado Américo.

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Gina Cigna
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Maria Olenewa
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Alfredo Colósimo
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Ida Miccolis
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Carlos Gomes, através das obras que compôs, foi imortalizado na música universal. No Theatro Municipal, ganhou uma fantástica homenagem de Eliseu Visconti, principal artista nas obras de decoração do teatro, responsável pela pintura do pano de boca.

Nele, Visconti inclui a figura do compositor brasileiro, elevando-o como um dos maiores músicos na história da civilização.

CRÉDITOS DA EXPOSIÇÃO

Fontes Documentais
Acervo do Centro de Documentação - CEDOC/FTMRJ


Pesquisa e Textos
Fátima Cristina Gonçalves


BIBLIOGRAFIA

CARLOS Gomes: uma obra em foco. Rio de Janeiro: FUNARTE, Instituto Nacional de Música, 1987.

ISMAEL, César de Carvalho. Carlos Gomes: Lo Schiavo (1870-1889). Natal: ANPUH, XXVII Simpósio Nacional de História, 2013.
Disponível em: <www.snh2013.anpuh.org/resources/.../1370856299_ARQUIVO_Cesar.Ismael.GT34.p.>
Acesso em: 15 ago. 2016
SCANDAROLLI, Denise. Projeto Lo Schiavo - As intermitências da criação, Revista Música, v. 13, n. 1, p.155-186,ago.2012.
Disponível em: <www.revistas.usp.br/revistamusica/article/download/55109/58746>
Acesso em: 15 ago. 2016.