Heitor Villa Lobos

e o Theatro Municipal
do Rio de Janeiro

“É na natureza que o artista encontra sua melhor inspiração.”
Heitor Villa Lobos

Villa-Lobos: a inspiração pela natureza

Ao longo de seus 72 de vida, Heitor Villa-Lobos (1887-1959) compôs cerca de mil obras, destacando-se como um dos maiores gênios da música brasileira.
Suas composições refletem uma personalidade inquieta na busca dos sons da natureza e atenta aos movimentos dos rios, à melodia das marés, à exuberância das florestas.
A paixão pela música fez com que Villa-Lobos, ainda criança, aprendesse a tocar clarinete e violoncelo.


Movido por uma curiosidade aguda, Villa-Lobos partiu, entre 1905 e 1912, para vários pontos do Brasil, como um antropólogo na construção de seu objeto de investigação, procurando conhecer pessoas e capturar cores, ambientes, cantos, danças e ritmos de sua terra. Destas descobertas surgiu um contagioso encantamento, disseminado em sua vasta produção musical, que marcou a história da música brasileira do século XX.
A respeito de suas composições, afirma:

" O que escrevo é consequência cósmica dos estudos que fiz, da síntese a que cheguei para espelhar uma natureza como a do Brasil. Quando procurei formar a minha cultura, guiado pelo meu próprio instinto e tirocínio, verifiquei que só poderia chegar a uma conclusão de saber consciente, pesquisando, estudando obras que, à primeira vista, nada tinham de musicais. Assim, o meu primeiro livro foi o mapa do Brasil, o Brasil que eu palmilhei, cidade por cidade, estado por estado, floresta por floresta, perscrutando a alma de uma terra. Depois, o caráter dos homens dessa terra. Depois, as maravilhas naturais dessa terra. Prossegui, confrontando esses meus estudos com obras estrangeiras, e procurei um ponto de apoio para firmar o personalismo e a inalterabilidade das minhas ideias."

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Villa-Lobos e a Sociedade de Concertos Sinfônicos

A história de Villa-Lobos no Theatro Municipal do Rio de Janeiro tem início em 31 de julho de 1915, quando a consagrada Sociedade de Concertos Sinfônicos, dirigida pelo Maestro Francisco Braga, apresentou no programa do 29º concerto músicas de compositores como Mendelssohn, Bizet, Wagner e uma composição - Suíte característica para instrumentos de corda: Tímida, Mistérios, Inquieta - de um jovem músico, estreante no repertório executado pela Sociedade: Heitor Villa-Lobos. Ao lado do nome do compositor havia a seguinte menção:

"A Sociedade de Concertos Sinfônicos tem procurado incluir nos seus programas não só os artistas mais conspícuos do nosso meio musical (...), como composições dos nossos mais inspirados músicos. Apresentando ao seu público o Sr. Villa-Lobos e a Suíte característica para instrumentos de corda, a Sociedade de Concertos Sinfônicos continua fiel no seu propósito."

Durante a 44ª apresentação da Sociedade de Concertos Sinfônicos, em 5 de dezembro de 1918, outra composição de Villa-Lobos foi inserida: o Concerto para Violoncelo e Orquestra.

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UM MÚSICO EM PROJEÇÃO

Durante a década de 1920, a música de Villa-Lobos se tornou cada vez mais presente na programação do Theatro Municipal. Em setembro de 1920, durante a cerimônia de saudação ao Rei e a Rainha da Bélgica, o jovem compositor apresentou e regeu duas de suas sinfonias: a n. 3, A Guerra, e a n. 4, Vitória, compostas no ano anterior.
Em 1922, depois de ter participado da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, Villa-Lobos teve sua composição Prole do Bebê tocada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro pelo renomado pianista Arthur Rubinstein, seu amigo e um dos maiores incentivadores de seu trabalho.

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Em 1923, já conhecido nacionalmente, Villa-Lobos partiu para Paris, onde ficou menos de um ano. Lá, teve contato com a música de Debussy e de compositores russos, como Igor Stravinsky, cujas influências foram muito presentes em suas composições. Na França, compôs Poème de l’Enfant et sa Mère e Noneto.

Em 1927, retornou a Paris para uma permanência de três anos. Se despediu dos brasileiros no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, promovendo o Concerto de música típica brasileira, que reuniu várias de suas composições: Meu País, Cantigas e Roda, Teiru, Choros n. 10, Na Bahia tem, Choros n. 3 (Pica-Pau), Seresta, Canção da Terra. Nessa segunda temporada na Europa, conquistou prestígio internacional.

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DE VOLTA AO BRASIL

Ao retornar ao Brasil, em 1930, Villa-Lobos marcou de vez o cenário musical brasileiro, não só com novas composições - como as nove Bachianas Brasileiras, Canto do Pajé, Descobrimento do Brasil e outras -, mas também com um projeto de Educação Musical que desenvolveu junto às prefeituras de São Paulo e do Distrito Federal.

Em 1932, a Diretoria Geral da Instrução, sob a direção do educador Anísio Teixeira, criou no Distrito Federal o curso de Pedagogia de Música e Canto Orfeônico, que deu origem ao Orfeão dos Professores, dirigido por Villa-Lobos, que formava professores para atuarem no ensino de música nas escolas.

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Ao longo do governo de Getúlio Vargas (1930-1945), Villa-Lobos se destacou como um dos grandes expoentes da música brasileira. Em 1935, como membro da comitiva do presidente em viagem à Argentina, estreou no Teatro Colón o balé Uirapuru. A temática das obras de Villa-Lobos e a referência delas com os aspectos naturais do Brasil se coadunavam com a marca identitária que o governo brasileiro buscava associar ao país.

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Atento e engajado aos momentos históricos de seu tempo, compôs em 1943 Invocação em Defesa da Pátria para Coro e Orquestra, pouco tempo depois do Brasil declarar seu apoio aos Aliados. Em 28 de outubro de 1943, durante as comemorações do Dia do Servidor Público no Theatro Municipal,  juntamente com a soprano Violeta Coelho Netto de Freitas - a quem ele se refere carinhosamente como “o sabiá do Brasil” - apresentou ao público sua composição, na qual exalta a terra brasileira como berço da liberdade a ser preservado do terror da guerra.

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Violeta Coelho Netto de Freitas
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O amplo repertório de Villa-Lobos no Theatro Municipal: balé, concerto, ópera

O primeiro balé com música de Villa-Lobos foi apresentado no Theatro Municipal em setembro de 1934 – Jurupary -, com coreografia de Serge Lifar e regência de Henrique Spedini.

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Vaslav Veltchek
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Edoardo Guarnieri
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Eros Volusia
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Outras apresentações de balé com o Corpo de Baile do Theatro Municipal e música de Villa-Lobos eternizaram coreógrafos e bailarinos.

Em 19 de maio de 1943, oito anos depois da apresentação no Teatro Colón, Uirapuru teve sua estreia no Brasil, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com coreografia de Vaslav Veltchek, regência de Edoardo De Guarnieri e a bailarina Eros Volusia no papel principal.

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Uirapuru foi reapresentado em 03 de novembro de 1946, com coreografia de Yuco Lindberg, regência de Henrique Spedini e a bailarina Leda Yuqui como "Índia Caçadora".

Yuco Lindberg
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Leda Iuqui
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Henrique Spedini
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A terceira apresentação de Uirapuru no Municipal foi em 1955, com coreografia de Vaslav Veltchek, regência de Nino Stinco e os bailarinos Tatiana Leskova e Dennis Gray nos papéis principais.

Denis Gray
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Tatiana Leskova
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Nino Stinco
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Em 1958, Uirapuru voltou ao palco do Municipal, outra vez com coreografia de Veltchek, regência de Stinco e Dennys Gray no papel principal. A bailarina Josemary Brantes estreou no papel de “Índia Caçadora”.
Floresta Tropical, composto por Villa-Lobos em 1955, foi coreografado por Dalal Achcar e apresentado pelo Ballet do Theatro Municipal nas temporadas de 1975, 1985, 1992 e 2000.

Dalal Achcar
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Em 2016, no espetáculo Trilogia Amazônica, o Theatro Municipal homenageou o compositor reunindo suas principais composições para bailados com temática sobre a natureza: Erosão, Uirapuru, Amazonas e Alvorada na Floresta Tropical, com regência de Tobias Volkmann.

No palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Villa-Lobos estreou várias óperas de sua autoria.

Izaht, sua primeira grande ópera, composta em 1912, foi apresentada em forma de oratório no Municipal, em março de 1940, com a participação do cantor Vicente Celestino. Em de dezembro de 1958, Izaht voltou ao teatro como ópera, em 4 atos, em estreia mundial, com regência de Edoardo De Guarnieri, coreografia de Tatiana Leskova e, no elenco, Maria de Sá Earp, Aracy Belas Campos e Assis Pacheco.

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Aracy Bellas Campos
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Assis Pacheco
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Maria de Sá Earp
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Descobrimento do Brasil, composto em 1937, foi apresentado pela primeira vez nas Américas em 17 de novembro de 1952, no Theatro Municipal, com a participação do Coro e da OSTM, sob a regência do próprio Villa-Lobos.
A Menina das Nuvens, baseada na peça de Lucia Benedette, foi a quarta e última ópera composta por Villa-Lobos e estreou no Theatro Municipal em 29 de novembro de 1960, um ano após o falecimento do compositor. A ópera teve coreografia de Eugenia Feodorova, cenários de Giani Ratto, regência de Edoardo De Guarnieri e as participações de Aracy Belas Campos, Paulo Fortes e Assis Pacheco no elenco.

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Eugenia Feodorova
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Lúcia Benedette
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Em 2015, o Theatro Municipal novamente apresentou ao público A Menina das Nuvens, com coreografia de Tíndaro Silvano, cenários e figurinos de Rosa Magalhães. No elenco, Gabriela Pace, Inacio De Nonno, Licio Bruno e outros.

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Yerma, originalmente escrita como peça teatral de Federico Garcia Lorca, foi transformada em ópera, com 3 atos, por Villa-Lobos, em 1955. Estreou nos Estados Unidos, em 1971, anos depois do falecimento de Villa-Lobos. A estreia no Brasil se deu em 26 de maio de 1983, com regência de Mário Tavares, direção de Adolfo Celi, coreografia de Dennis Gray e Diva Pieranti como solista.

Adolfo Celi
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Diva Pieranti
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Mário Tavares
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A DESPEDIDA

Villa-Lobos faleceu no Rio de Janeiro em 17 de novembro de 1959. O Theatro Municipal, palco de merecidas honras ao grande compositor e maestro, acolheu o comovido público para sua cerimônia de despedida. No Theatro Municipal, Villa-Lobos fez história. E deixou saudades.

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Créditos da Exposição

Fontes Documentais
Acervo do Centro de Documentação - CEDOC/FTMRJ

Curadoria e Textos:
Fátima Cristina Gonçalves

Fotos:
Acervo CEDOC/FTMRJ
Júlia Rónai

BIBLIOGRAFIA

JARDIM, Gil. O estilo antropofágico de Heitor Villa-Lobos. São Paulo: Philarmonia Brasileira, 2005.

RIBEIRO, João Carlos (org.). O pensamento vivo de Heitor Villa-Lobos. São Paulo: Martin Claret, 1987.

www.museuvillalobos.org.br